Arte rupestre: significados e mistérios
Na Serra da Capivara, no sudeste do Piauí, à primeira vista uma pintura
rupestre pode dizer muito ou nada. É que não sabemos ao certo os sentimentos e
experiências contadas através dessa arte pelos primeiros artistas plásticos da
humanidade. Gravadas em tetos e paredões rochosos, as pinturas rupestres são o
Diário das Cavernas do homem pré-histórico. Assim, primitivo é quem chama a
Arte Rupestre apenas de pintura antiga. A Arte Rupestre vale como um tesouro de
expressões e representa a conexão semiótica de símbolos gráficos associados a
sentimentos. Também registra momentos, narra períodos culturais, testemunha a
perplexidade diante do inexplicável e demarca territórios. Desafiando a imaginação,
nem tudo o que as pinturas rupestres dizem têm tradução: a maioria permanecerá
como enigma do passado.
O que é uma pintura rupestre?
A pintura rupestre é a mais antiga e coletiva expressão artística da
humanidade. Esta técnica espalhou-se quase que simultaneamente pelo planeta há
mais de 40 mil anos, em data anterior à invenção da escrita ou do alfabeto.
Assim, antes de escrever, o homem pintou e fez da pintura seu canal de
expressão e comunicação. Ao utilizar signos associados a emoções e significados,
deu pauta para a Semiótica, a ciência dos signos. Por sua posição na sequencia
cronológica anterior à escrita, a pintura rupestre é qualificada como Arte
Pré-História. Nem por isso é menos importante ou “primitiva”. Ao contrário de
uma tela tradicional, os artistas rupestres usaram a superfície das rochas como
base para a sua pintura, transformando o interior das cavernas e paredões nas
primeiras galerias de arte da humanidade.
Pinturas rupestres: ocorrências em todo o Piauí.
Maria Conceição Lage, o primeiro Doutorado em Arqueologia conquistado por um
piauiense, informa que no Estado já são conhecidos mais de 2.500 sítios
arqueológicos. E são muito mais a catalogar e a descobrir. “O Piauí é um grande
sítio arqueológico”, afirma. As ocorrências de pinturas rupestres se espalham
pelos sertões e chapadas. Pinturas rupestres são ocorrências presentes desde a
Chapada das Mangabeiras, no extremo Sul, ao município de Cajueiro da Praia, na
ponta Norte. Pesquisadores justificam esse grandioso acervo pelo Estado ter sido,
desde há milhares de anos, uma rota de passagem dos povos caçadores e
coletores. Também contribuem as condições estáveis do clima seco e quente,
favoráveis para a conservação natural das pinturas.
As tintas e cores da arte rupestre
As tintas naturais fabricadas pelos artistas rupestres eram obtidas e extraídas
do próprio ambiente. A Hematita, um mineral abundante no Estado, com alta
concentração do elemento Ferro, fornece um pigmento inorgânico de cor
avermelhada. Do mineral Goetita, quando moído, se obtêm um pó marrom escuro que
dá um pigmento de cor ocre muito comum nas pinturas. O Caulin, pigmento
originário de uma argila branca, (na China há séculos é usado na produção de
porcelana) quando misturado com a Hematita, adquire tom cinza. O carvão era o
material fornecedor do único pigmento (preto) de orígem orgânica. Os materiais
usados para aglutinar os pigmentos e produzir tinta à prova de escorrimento ou
gotejamento, eram sangue, látex vegetal (seivas em geral), clara e gema de
ovos.

O que é sítio arqueológico?
De Norte a Sul do Piauí são cerca de 900 Km em linha reta. De Leste a Oeste, 618 Km. Dentro deste
perímetro são 251.529,186km² de área total, com milhares de sítios
arqueológicos dentro. Os que já foram catalogados, visitados por arqueólogos e
pesquisadores, ultrapassam 2 mil. Mas como se reconhece um sítio arqueológico.
“Um sítio arqueológico é um local no qual os homens que viveram antes do início
de nossa civilização deixaram algum vestígio de suas atividades: uma ferramenta
de pedra lascada, uma fogueira na qual assaram sua comida, uma pintura, uma
sepultura, a simples marca de seus passos” (FUMDAHM). Os sítios arqueológicos
são diferentes pontos de encontros e de atividades que produzem vestígios e
deixam marcas dos povos ocupantes. O que estiver mais raso é recente. Assim,
quanto mais distante no tempo, mais fica coberto ou soterrado pelos sedimentos
do tempo.

Como se calcula a idade de uma pintura rupestre?
Datação é o nome genérico que se dá aos procedimentos e técnicas científicas
para medir a idade de materiais naturais (uma rocha), um artefato humano
pré-histórico (machadinha), um antepassado (crânio) pintura rupestre e muito mais.
Os métodos de datação utilizam várias referências. Uma delas é do Carbono-14,
uma variedade radioativa cuja contagem da radiação perdida permite recuar no
tempo até o limite preciso de aproximadamente 50 mil anos. A partir disso,
outras opções como Termoluminescência, que mede o tempo transcorrido desde a
última vez em que uma amostra sofreu aquecimento, é melhor indicada. Técnicas
mais recentes, como a ressonância paramagnética nuclear (EPR), permite, com
precisão de 10%, a datação de objetos entre 1000 a 1 milhão de anos.